Apesar de ter nascido na Freguesia
de Santo Ildefonso na mui nobre e invicta cidade e
de não ter um único ascendente, que eu saiba, que
tenha nascido a sul do Rio Douro, considero-me um
alfacinha.
Aqui faço uma pausa para que
os mais sensíveis possam ir à casa de banho
vomitar. Aos outros digo que os computadores estão
caros e que atirá-los contra a parede mais próxima
não será a decisão mais racional. Aos mais calmos
chamo à atenção que a minha mãezinha é uma mulher
honrada e, como boa minhota, é bem capaz de os
exceder em vernáculo.

É pior malta, adoro
Lisboa. Isto, confesso, obrigou-me a várias horas
de explicações aos meus filhos. Passo a
explicar.
Jogo do Porto num campo de
batatas ali entre o Campo Grande e Sete Rios ? não
imaginam as voltas que dou para não passar sequer
próximo desse batatal. A dada altura, eu e os meus
filhos ? adeptos fanáticos do nosso muito amado
clube ? desatamos a cantar
?Nós só queremos
ver Lisboa a arder? seguido do lindíssimo
cântico
?Se merda fosse ouro, Lisboa era um
tesouro?. A coisa correu bem e quando já
estávamos em frente dumas cervejas e duns
tremoços, a gozar como uns doidos com as carinhas
dos galináceos, diz-me um dos meus filhos:
?Ó
pai, ainda não percebi bem aquilo de Lisboa a
arder, então e a nossa casa??
Não
é fácil, caros consócios, não é fácil. A
explicação foi longa mas o que conta é que não há
jogo em que nós os três não sejamos os que gritam
mais alto estes cânticos. Temos até um só nosso,
que exalta o facto de todos os adeptos rivais
andarem à procura do respectivo paizinho.
Cheguei àquela que considero a minha cidade ?
calma malta ? com quatro anos de idade. Lá fui
para a escola e, como é normal, a primeira
pergunta foi:
?eh pá, és do Sporting ou do
Benfica?? Respondi meio a medo, já prevendo
os sopapos ? porra, os gajos eram muitos e maiores
que eu:
?eu sou do Futebol Clube do
Porto?. Então não é que os grandes filhos de
uma grande profissional do Elefante Branco
(é a versão do Paganini cá
do sitio) em vez de me darem as palmadas
esperadas, que fariam de mim um heróico mártir
portista, se riram da minha cara e me humilharam
dizendo que o meu amado Porto não contava?
Este belíssimo dialogo teve duas
consequências: a primeira é que a partir desse dia
fiquei para sempre conhecido como o Tripeiro ?
para os meus amigos do Porto sou o alfacinha.
Ainda hoje quando alguém quer falar de mim e dado
que a minha fisionomia se alterou bastante,
nomeadamente no que diz respeito aos meus dotes
capilares e músculo abdominal, os meus velhos
conhecidos e amigos dizem: o Tripeiro, pá.
A segunda foi que se o meu vírus tripeiro
já era à prova de antibiótico, a partir desse
momento virou doença terminal.

Ainda guardo uma
marca
(um dente incisivo a
menos) dum dos dias mais felizes da minha
vida. 11 de Junho de 1978. No dia seguinte, vesti
a camisa 3 do bigodudo Simões, uns calções azuis e
um cachecol ? que o meu padrinho me tinha mandado
nesse dia do Porto ? e lá fui, feliz como um cuco,
para a escola. Nunca uma carga de porrada me soube
tão bem.
A partir desse dia nunca mais
ninguém se riu do meu clube, carago.
Lá
fui crescendo e celebrando as nossas gloriosas
vitórias. Agora sou eu que não lhes passo cartão
mas divirto-me trinta mil vezes mais que todos os
portistas do Porto. Nenhum de vós imagina o gozo
que dá ir ao café, dar um golinho no café e dizer
meio para o enfadado: mais um campeonatozito ou,
pronto, lá ganhamos mais uma liga dos campeões.
Mesmo na trombinha deles. Sofremos mais com as
derrotas
(poucas,
porém), mas com as vitórias até
inchamos.
Vivi grandes dias com o nosso
Porto. Estava em Manchester quando o Costinha
marcou o golo, estava no campo de batatas quando o
Porto espetou 5 aos milhafres sem bico, estava em
Bremen quando o nosso eterno Rui Filipe marcou um
dos golos, acho que estava em Sevilha
(juro que depois de 35
vodkas, vi o Cubillas a dar um nó ao Humberto
Coelho) quando o Derlei cuspiu metade do
pulmão e foi buscar aquela bola, estava nas Antas
quando o André marcou o penalti contra o Kiev,
estava ao pé dum bingo que há ali para os lados do
Campo Grande quando o Torres defendeu o penalti
mais gamado da história do futebol e, é o que
conta, estive em todas as vitórias e derrotas
daquele que é o meu primeiro amor e será o último,
o meu, o nosso Porto.
Raios me partam
se não sou também eu que os ajudo a correr; se não
sou eu que ergo as taças; se não sou eu empurro
aquela bola para dentro da baliza dos adversários;
se não sou eu que me estico para ir buscar aquela
bola ao ângulo; se não são também as minhas
fraquezas que provocam algumas derrotas.
Caros irmãos portistas, andrades dragões, na
minha actividade de fala-barato e de cronista de
jornais podeis odiar o que eu falo ou o que eu
escrevo, mas se algum de vós passar por Lisboa e
vir um cachecol velhinho do campeonato de 1978 a
esvoaçar numa janela em dia de jogo, entrai. Lá
dentro está um vosso irmão de fé que ficará louco
de alegria em vos dar um copo. O resto não
interessa.